Mostrando postagens com marcador LEITURAS DE CELANO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LEITURAS DE CELANO. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

"20"

"Prometemos grandes coisas, maiores são as que nos foram prometidas. Observemos as primeiras e suspiremos pelas segundas". (2Celano 191,9)

Retomamos hoje, caros leitores, nossa caminhada reflexiva em torno de pequenos trechos da obra de frei Tomas de Celano acerca da vida de nosso Serafico Pai São Francisco de Assis. Particularmente por este texto, iniciamos uma série de pequenos textos que abordam várias passagens do subcapitulo 191 da "Vida Segunda".
O trecho escolhido para hoje nos fala de promessas.
Esta palavra que nos é tão cara, tanto em nosso cotidiano individual, quanto em nossa vida comunitária e/ou fraterna, por meio da história da salvação humana, escrita pelo próprio Deus.
Nessa passagem especifica, Francisco está contando uma parabola a seus frades, de modo a admoesta-los acerca da união que deveriam ter uns com os outros, independetemente da sua origem social, econômica e, principalmente, intelectual.

Na história da salvação que destacamos logo acima, Deus não faz distinção de homens por meio de classificações tão humanas e mesquinhas (ainda que tenha uma predileção clara pelos simples). Mas estabelece um vinculo de comunicação, como Criador para com suas criaturas, de modo a mostrar-lhes quais os caminhos mais propícios.
Esses são os caminhos da promessa!
Promessa de uma vida melhor à sua sombra, como é proposto desde Abraão, passando por Moisés e se estendendo por todos os grandes personagens do antigo e novo testamento até chegar a nós.

Em contraponto, também fazemos grandes promessas: de mundança de vida, de hábitos etc., mas que muitas vezes não são mais o que meras propostas momentâneas e superficiais.
Como no trecho destacado do texto de Celano, essas são promessas menores, ínfimas se comparadas às que Deus nos prepara e reserva.

Francisco acreditava firmemente nas propostas de Deus, manifestadas plenamente em sua vida: coração, alma e espirito. Supliquemos em meio a suspiros, para que Deus se digne a manifestar nas nossas a milesima parte da proposta feita ao nosso querido assissiense.
Pensemos nisso!

Wendell Ferreira Blois
Fraternidade Frei Leão

Para ler as reflexões anteriores da coluna "Leituras de Celano", clique AQUI!


terça-feira, 8 de maio de 2012

"19"

“Isto é o que pensa o murmurador: ‘Minha vida não é perfeita, não tenho ciência nem algum outro dom particular, e por isso não estou bem nem com Deus nem com os homens. Já sei o que vou fazer: porei defeito nos escolhidos, e assim conseguirei o favor dos importantes.
Sei que meu prelado é também um homem, que já agiu comigo do mesmo jeito, por isso basta cortar os cedros que o meu ramo há de se destacar na floresta. Vamos, miserável, alimenta-te de carne humana e, como não podes viver de outra maneira, rói as entranhas dos irmãos!’" (2Celano 183, 1-5)

Quantos destes murmuradores há por ai, não é mesmo caro leitor?
Muitos deles, para nosso infortúnio, se colocam muito próximos de nós, se não fisicamente, utilizando dos métodos mais variados que a tecnologia nos proporciona.

A muito tenho falado sobre fraternidade.
Bem ou mal, este tema é muito recorrente, direta ou indiretamente, nas linhas que destaco neste blog.
E o presente texto é um destes que se encaixa nesta temática, que não dista apenas sobre uma
problemática (os murmuradores/fofoqueiros/invejosos) que vez ou outra ocorre no convívio fraterno, mas também na vida comum, seja você franciscano ou não.

Penso que o exemplo de São Francisco, e que abre esta reflexão, é demasiadamente autoexplicativo. O Seráfico Pai fala daqueles irmãos que se dedicam a cuidar, zelosa e pejorativamente, da vida dos outros.
Há uma frase que, penso eu, norteia a convivência fraterna (pelo menos a vida da fraternidade Jufra 'Frei Leão') e que diz o seguinte: 'Deus deu uma vida pra cada cuidar da sua!'

Que os murmuradores, sem eufemismos ou metáforas, engasguem com o volume de suas línguas e se entorpeçam com o veneno que delas flui.
Encerremos por aqui estas linhas, pois esta coluna deve ser um  momento de reflexão; mas hoje, devido às necessidades de quem a escreve, se tornou oportunidade de desabafar algumas coisas, exorcizar alguns delírios. 

Que Deus nos abençoe!
Paz e bem!

Wendell Ferreira Blois
subsecretario de formação

terça-feira, 3 de abril de 2012

"18"

"Porque virá uma tribulação em que os livros não vão servir para nada, e serão jogados nas janelas e nos desvãos”. (2Celano 195, 4)

Eis um alerta muito interessante feito por Francisco!
Pode parecer que o assissiense de alguma forma abominasse os livros ou os estudos, mas isso nós já sabemos que não, uma vez que permitiu que o frades estudassem a santa teologia.
Então, por que São Francisco nos repreende de tal forma?
Ora, o que vemos em vários ramos da família franciscana, e mais particularmente entre os franciscanos seculares aos quais este texto se dirige, não é um simples estudo que busque como consequência se aprofundar nos mistérios de Deus, bem como a partilha de nossos estudos de maneira pratica e útil para com nossos irmãos.
Como já disse anteriormente, podemos enxergar nesses franciscanos um intenso processo de 'eruditização', ou de 'tornar-se erudito'.
E vale a pena ressaltar que o erudito é diferente do intelectual.
Intelectual, em grossos termos, é aquele que faz do seus estudos algo útil, partilhando com a comunidade em que está inserido. Quando os frades, a cerca de 800 anos, pediram a São Francisco que pudessem estudar, era algo mais ou menos nesses termos que o propunham.
Já o erudito, produz uma forma de conhecimento, que nada mais é do que o fruto de um 'emsimesmamento', que dificilmente sai ou é aproveitado além das quatro paredes em que é produzido.
Isso sim Francisco abominava!

O Seráfico Pai insistiu até a morte para que o irmãos que Deus lhe dera, se ocupassem em agir em prol dos pequenos, dos pobres, dos necessitados. Nisso se solidificava o ideal franciscano de vida.
Hoje, os franciscanos seculares fazem uma leitura interpretativa que tenta facilitar o 'ser franciscano', que marginaliza as ações em favor de um estudo vazio. E pensam que isso sim torna sólido o franciscanismo atualmente.

Não devo generalizar!
É claro que há muitos seculares que de fato vivem segundo a vontade e a inspiração do poverello, e que, assim como eu, se angustiam frente tal corrente.

Quando chegar o dia em que os livros de nada adiantarão, se fará concreto a profecia de um pensador do século XIX que dizia "tudo que é sólido se desmancha no ar". E ai veremos qual solidez se manterá integra frente as tribulações que nos acorrerão.
Aguardo ansiosamente por esse dia!

Wendell Ferreira Blois
subsecretário de formação

terça-feira, 27 de março de 2012

"17"

“Os meus irmãos que se deixam arrastar pela curiosidade da ciência vão se encontrar de mãos vazias no dia da retribuição. Gostaria que se reforçassem mais com virtudes para que, vindo os tempos de tribulação, tivessem o Senhor consigo na angústia." (2Celano 195, 2-3)

Quanta atualidade nestas palavras!
Muitos dos que estão lendo estas linhas hão de concordar comigo: estas palavras de São Francisco, proferidas a 800 anos, são repletas de uma atualidade descomunal.
Regulares ou seculares, os franciscanos ainda passam por uma certa crise de identidade em relação aos seus estudos, sobre sua necessidade ou não, bem como a profundidade dos mesmos.
Francisco era um homem dado às ações, não à letra.

Ainda quando o assissiense era vivo, muitos de seus seguidores pediram-no que pudessem estudar, de modo a servir melhor a Deus, e se aprofundar na sapiência divina.
Muitos franciscanos contemporâneos são frutos dessa corrente. Se apaixonaram pelo ideal franciscano de vida, pela essência tão simples do Seráfico Pai, mas no momento em que deveriam partir para o mais difícil, a vivência plena concretizada nas ações, esses ditos franciscanos esmorecem.
Para esses, o franciscanismo está ligado mais a uma filosofia de vida, do que um modo de vida propriamente dita.

E nesse ponto escrevo aos seculares: há muitos franciscanos por ai se escondendo por detrás de montanhas de livros, procurando se aprofundar em conhecimentos que, se não forem colocados em pratica, não são mais fundos do que uma poça de água em dia de chuva.

Há tanto trabalho pra fazer nas mais diversas pastorais e movimentos dessa nossa Igreja, mas muitos franciscanos, do alto de sua erudição, preferem permanecer na comodidade de suas reuniões de formação e grupos de estudo.
Erudição!
Palavra bonita. Mozart, Beethoven, Wagner e muitas outras personalidades são exemplos de erudição. Mas nenhum desses era franciscano!
Suas obras estão mais ligadas ao mundo das ideias do que das ações, propriamente ditas.

Franciscano parado, sem ação, pode ser qualquer coisa, menos franciscano.
Pensemos nisso!

Wendell Ferreira Blois
subsecretario de formação

 

terça-feira, 20 de março de 2012

"16"

"Seguia por toda parte o amado pelos vestígios que deixou nas coisas, e fazia de tudo uma escada para chegar ao seu trono". (2Celano 165, 6)

Como se diz popularmente, 'depois que o ovo já foi posto em pé, é simples demais dizer que fazer isso é fácil'.
Seria muito fácil dizer também que São Francisco trilhou o caminho mais simples, encontrando o seu amado, Deus, nas coisas mais simples. E de fato assim o fez.
Mas isso não tira o mérito, mérito desprezado pelo Seráfico Pai, dessa forma tão original de busca pelo seu Criador.

Em sua época, e até hoje, Francisco era chamado de penitente.
Não exatamente um penitente no sentido de se castigar ou se flagelar (poenitencia), mas no sentido primeiro que nos quer remeter 'àquele que sente falta de algo' (paenitencia).
Nesse sentido, o assissiense é um exemplo de penitente, uma vez que sente a falta de Deus, e não só isso, pois também o busca incessante e incansavelmente. Mas da forma mais simples, e um tanto quanto inconcebível para a sua época, busca os sinais do Criador nas criaturas que o cercam.

Ora, olhando do ponto de vista de um observador, oitocentos anos depois de todas as maravilhas operadas por Deus através do poverello de Assis e seus seguidores, e dizer que tudo foi simplório, comezinho e, até mesmo, bucólico, me parece demasiadamente anacrônico e inadequado.
Francisco seguiu tão somente as instruções de São Paulo: 'buscai, aspirai primeiro às coisas do alto'.

A diferença é que, enquanto muitos de seus contemporâneos, e tantos outros que ainda hoje se denominam franciscanos, buscavam a Deus literalmente no céu, no alto, em um lugar fisicamente distante, Francisco encontrou na natureza, na criação, no próximo físico e espiritualmente Aquele a quem devemos nossa existência. E essa existência sim, essa podemos chamar de simplória, comezinha e bucólica.

Pensemos nessas coisas!

Wendell Ferreira Blois
subsecretario de formação

quarta-feira, 14 de março de 2012

"15"

"Nas coisas belas reconhecia Aquele que é o mais belo, e ouvia todas as coisas boas clamarem: 'Quem nos fez é ótimo'". (2Celano 165, 5)
 
Não é raro ouvir de alguma pessoa que fale de São Francisco, uma descrição bastante característica de um homem que se fez santo, enquanto amante da natureza. Muitos até imaginam Francisco como alguém que vivia de 'boca aberta', contemplando as maravilhas da criação de Deus.
Essa imagem que muitos fazem do assissiense não é de todo errado, excetuando pela exagerada ingenuidade, ou até mesmo, infantilidade que empregam erroneamente a esse modo de ser de Francisco.

Como já disse em outra oportunidade, Francisco é o Moisés medieval, que tem uma visão diferente de seus contemporâneos em relação à manifestação de Deus em sua vida e, em decorrência disso, apresenta toda uma reverência própria para essa manifestação.
No livro do Êxodo, encontramos o profeta ajoelhado diante da sarça ardente, cabeça baixa, pasmado diante daquela manifestação inquietante de Deus. Assim também Francisco fazia diante da natureza que o cercava.
Não era necessário que determinada vegetação ardesse em chamas sem se destruir para que ali Francisco contemplasse, visse ou ouvisse a epifania divina. A natureza por si só é a perfeita manifestação do amor de Deus em nosso meio, e não havia como Francisco se portar de maneira indiferente a isso, e por isso admirava ou pasmava tanto diante da face divina reverenciada na criação.

E assim como o narrador do Gênesis, Francisco também trazia dentro de si os dizeres de Deus: "E viu como tudo era bom". Via e ouvia também a própria criação aclamando com a alegria seu Criador, louvando-O e bendizendo-O pela oportunidade de servi-lo com o esplendor de sua beleza natural.

Peçamos a Deus que, nós que nos dizemos seguidores de Francisco de Assis, nos tornemos mais atentos à sua manifestação em meio a criação, e que como parte dela, louvemo-Lo como nos ensina nosso Seráfico Pai.

Assim seja. Amém!

Wendell Ferreira Blois
subsecretário de formação

terça-feira, 6 de março de 2012

"14"

“O pregador tem que haurir primeiro nas orações feitas em segredo aquilo que depois vai derramar em palavras sagradas. Tem que se afervorar primeiro por dentro, para não proferir palavras frias”. (2Celano 163,3)


Esse ensinamento de São Francisco, quase que teológico, nos é muito útil no dias de hoje.
Dias em que tantas vezes vemos pregadores de todos os tipos, não tão somente os religiosos, mas também os politicos e outros, se entregarem a pregações ou discursos extremamente superficiais e vazios; padres que fazem de suas homilias um gesto mecânico e decorativo, quando não fazem da mesma um vômitório de livros e palavras de auto-ajuda.

Francisco nos ensina sobre a importância da oração em relação à pregação.
Penso que essa oração deve ser extraída de onde, segundo Salomão em seus provérbios, brotam todas as fontes de vida: o coração. E da oração daí advinda vamos dialogar com Deus, com nós mesmos, com a natureza que nos cerca e com o próximos. A oração serve então como instrumento para nos 're-ligarmos' com todos os aspectos intrinsecos à nossa essência: o humano, o divino, o natural e o social.

É mais ou menos o mesmo exercicio que, segundo os evangelistas, Maria fazia em determinadas passagens ao testemunhar ou ouvir as palavras de Jesus: "guardava aquelas palavras e as meditava no coração".
Creio que esse exercicio tenha sido muito importante para que a mãe do messias feito homem pudesse, após a morte de seu filho, servir como apoio aos discípulos que a cercavam.
Ou seja, o pregador não deve partir 'do nada', ou de uma determinada palavra, trecho ou passagem escolhida da 'noite para o dia', mas de uma reflexão mais profunda, meditada por um tempo, depurada no coração.

E, voltando ao pensamento salomônico, se 'do coração brotam todas as fontes de vida', as palavras e tudo aquilo que dali extrairmos como fruto de nossas orações e reflexões, também serão palavras de vida, possiveis de serem partilhadas com quem quer que seja.

Pensemos nessas coisas!

Wendell Ferreira Blois
subsecretário de formação
 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

"13"

"Lia os livros sagrados, de quando em quando, mas o que punha uma vez no espírito ficava indelevelmente escrito em seu coração" (2Celano 102,3)

Francisco foi um homem repleto das palavras do Senhor. Sem dúvida alguma, ainda que não pregasse abertamente com palavras, testemunhou e foi um grande arauto do evangelho, da boa-nova de Jesus.
Como o próprio Mestre fala "a boca fala do que está cheio o coração" (Lc 6, 45), e o coração de Francisco estava sempre cheio, se não das palavras própriamente ditas, mas da essência e dos ensinamentos das Sagradas Escrituras.

Podemos simplificar a frase em destaque dizendo que São Francisco conhecia a palavra de Deus "de kór". Mas por que?
Ora, essa expressão sintetiza uma idéia latina daquilo que, de uma forma ou de outra, representa muita importância para determinado individuo, e que o guarda de tal forma, quase como um tesouro, que não haveria cofre melhor para retê-lo: o próprio coração!

Apesar de ter acesso tão raramente, o assissiense tinha um zelo tão grande pelas 'santas palavras' que fazia de sua vida uma espécie de repetição das palavras que lia, guardava e meditava em seu coração. A tal ponto que, o leitor mais atento, poderá traçar uma série de comparações entre o Seráfico Pai e diversos personagens bíblicos. As próprias regras que compôs para seus frades eram delicados recortes do Evangelho, costurados magistralmente entre si, de modo a regimentar a vida dos que o seguiam.

Penso que está justamente aí uma das principais 'novidades' de Francisco para sua época, o retorno ao Evangelho. É claro que todos aqueles homens e mulheres que a Igreja elevou a honra dos altares por sua santidade, viveram a seu modo o Evangelho. Mas nenhum com a intensidade e ineditismo de Francisco. Ele foi 'contra a maré'.
A palavra do Senhor vivia presa por correntes, em Igrejas inacessíveis à necessidade espiritual do povo em geral. Francisco, com o pouco que tinha e sabia, partilhou do alimento que recebia da boca de Deus: a palavra!

Engraçado, hoje em dia temos as Sagradas Escrituras em suas mais variadas versões, edições, comentários etc, e mesmo assim me parece que tão poucos a conhecem de fato.
Peçamos ao Senhor, que neste ano que se inicia, nos motivemos e nos guiemos pelas Sagradas Escrituras de modo a testemunharmos, como Francisco de Assis, a boa-nova de Jesus Cristo, vosso Filho e nosso irmão!

Assim seja, amém!

Wendell Ferreira Blois
subsecretario de formação

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"12"

"Que mastigue esterco essa língua que soltou veneno da ira em cima do meu irmão." (2Celano 155,6)

Já a algumas semanas venho destacando trechos da biografia de São Francisco, escrita por Tomás de Celano que, para aqueles que pensam que a vida de nosso Serafico Pai se resume a seu carinho pelos animais e seu zelo pela paz, deve ter causado algum escândalo algumas de suas recomendações mais duras aqui comentadas.
E, principalmente, as admoestações acerca do modo de vida e a humildade de seus frades. Assim também é o excerto de hoje!
Francisco se preocupa com o crescimento de sua familia espiritual. O Espirito Santo chama e acalenta muitos homens e mulheres a se inspirarem no assissiense, aproximando-se da divindade enquanto seres imperfeitos. As obras feitas e o testemunho dado pelos primeiros irmãos apontam um lastro que não poderia ser outro: o divino!
Mas com o rápido crescimento do "movimento de Assis, a humanização se difundiu por toda a ordem, com todos os seus aspectos positivos e negativos, ainda que ela ainda estivesse intimamente instruida pelo Espirito. Nesse sentido, algumas caracteristicas irritam em demasia a Francisco, destacando principalmente, os frades que por algum motivo discutiam ou axincalhavam outros irmãos. Via nesses frades um potencial muito grande para difamar a obra que Deus operada em toda a Ordem, por meio de palavras vãs.
Como mudar essa situação? Como admoestá-los de modo a livrar seus irmãos da impureza e do pecado?
Francisco foi um santo que sempre se inpirou nas sagradas escrituras. Penso que nesse caso poderia ter se inspirado no Serafim que, para purificar os lábios do profeta Isaias de toda maledicência, impôs sobre seus lábios um pedaço de brasa ardente (cf.Is. 6,6-7). Talvez esse exemplo fosse duro demais para os frades, e se o ensinamento a ser dado remetia-se à humildade, nada seria tão objetivo e concreto do que impor ao frade 'infrator' uma porção de esterco para que fosse mastigado.
Como já vimos, a formação da palavra humildade está diretamente ligada ao termo húmus, dejeto animal ou humano (esterco), ou à habilidade de se colocar/posicionar como tal.
É claro que hoje não precisamos mastigar esterco de modo a penitenciarmo-nos em função de nosso erros e maldizeres. Mas que o exemplo empregado por Francisco nos sirva para não irmos contra o testemunho de vida o qual nos propomos a dar enquanto seus seguidores.
Que Deus não permita que lancemos de palvras 'não-edificantes' para com nossos irmãos, não somente com nossos lábios, mas também em nossos pensamentos e no coração. Assim, poderemos viver a alegria daqueles que, seguindo os passos de Francisco de Assis, bendizem a Deus pela graça de partilhar a vida fraternalmente como irmãos!

Paz e bem!

Wendell Ferreira Blois
sbsecretário de formação

Gostou?
Quer ler outros textos que tratam da Humildade franciscana?
Clique aqui....
ou aqui!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

"11"

“O cargo é um perigo, o louvor é um precipício e a humildade de ser súdito é uma vantagem espiritual. Então, por que vamos preferir os perigos às vantagens, se nos foi dado tempo para tirar proveito?” (2Celano 145,8-9)

Afirmação radical!
Devemos interpretá-la de modo a enxergar o sentido primeiro em que ela foi composta, de modo a não tirarmos 'proveito' da frase e dá-la um sentido que não lhe seja própria.
Francisco mais uma vez exorta os frades a não se apegarem aos seus cargos e funções, mas a se colocarem como humildes servos. Vamos 'destrinchar' os termos!

O servo no qual Francisco se espelha, se assemelha ao homens que na Idade Média estavam presos aos seus senhores pelos laços da servidão e que, diferentes dos escravos, mantinham juridicamente seu direito à vida. O Seráfico Pai é o servo que oferece sua vida por inteira a Deus, seu único Senhor. E quer que seus confrades façam o mesmo.
Ou seja, Francisco alicerça espiritualmente os frades tendo como referência a organização da sociedade de sua época, utilizando de alegorias, metáforas e comparações, de modo que pudesse instruí-los no caminho da perfeita humildade e do constante serviço a Deus.
É claro que não é possível servir tão plenamente a Deus, se não constituirmos uma estrutura concreta que nos permita levar tudo isso às vias de fato. Até foi possível quando o número dos frades era pequeno. Mas com a difusão do carisma, milhares aderiram e a organização desses frades se fazia necessária. Criaram-se as províncias e as devidas funções de ministros para que as gerissem.
E aí encontramos o perigo do qual Francisco nos fala!
O perigo não está necessariamente na função ou cargo, mas na forma como ele é exercido.

Independente da institucionalização das ordens, Francisco nos mostra que, com cargo ou não, é necessário que tenhamos a humildade de servir. Humildade: se comparar ao húmus, ao esterco, aos nossos próprios dejetos. Afinal, perto do Senhor ao qual servimos não somos mais do que isso mesmo. No entanto, se temos a oportunidade de lucrar espiritualmente no serviço a Deus e aos irmãos, e ainda contribuir para o desenvolvimento de determinado serviço que se encaixa em determinada função ou cargo, por que não aceitá-lo?

Humildade: isso é que nos falta!
Tanto para servir, quanto para reconhecer a dificuldade que o nosso 'não querer servir' impõe à fraternidade/comunidade em que estamos engajados, e o quanto fazemos falta quando nos negamos a servi-la. Muitas vezes tomamos atitudes 'anarquizadoras' quando interpretamos radicalmente essa frase. São Francisco quer que sirvamos! Se as funções estão disponíveis e a oportunidade de servir se faz presente, é preciso que sirvamos. Afinal, amar é servir!
Eu amo e tento servir. E você?

Pensemos nisso!

Wendell Ferreira Blois
subsecretario de formação

Ainda sobre humildade, confira o texto 8!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

"10"

"Todas as vezes que o repreendiam pela aspereza da vida que levava, respondia que tinha sido dado à Ordem como exemplo, para provocar seus filhotes a voar como uma águia." (2Celano 173, 1)

Francisco tinha sempre uma resposta objetiva e quase que imperativa, ainda que demasiadamente fraterna, frente as interpelações que lhe eram feitas. Clareza e inspiração divina são suas marcas em meio às contestações que eram levantadas.
Por isso ele explica o 'porque' daquela forma de vida tão áspera aos olhos de muitos, aos muitos que o interrogam. Assim, o poverrello utiliza a metáfora da águia que com seu exemplo provoca seus filhotes a voarem.
Que sublime exemplo nós temos, meus irmãos!
Seguimos uma águia que provocou a tantos, e que foi provocado tão proximamente por uma 'ave' imensamente maior do que qualquer outra: o próprio Cristo.
Que exemplo inspirador!
Mas será que, de fato, nos motivamos com tal exemplo?
Nos assemelhamos a águias que alçam os mais altos vôos junto ao Seráfico Pai? Ou será que, presos à nossa mediocridade e mesquinhez humanas, vemos nosso peso espiritual se multiplicar por falhas e nosso vôo se comparar ao de uma galinha?
Nada contra as galinhas, muito pelo contrário! O próprio Deus em relação a nós, através do salmista, se compara a uma quando nos convida a encontrar refugio sob suas asas, tal como pintinhos. Mas se somos convidados a assumir uma outra metáfora, e alçar vôos mais altos, então não podemos nos esconder por detrás dessa proposta.
É necessário que nos desfaçamos de nossos pesos, de modo a alongarmos ainda mais nossas asas. Abrir mão de nossos pecados para ganhar mais forças para o 'bater das asas'. E levantar a cabeça para ver logo acima de nós, aqueles que nos inspiram e que voam à nossa frente.
Preparado?
Não?
Não tem problema! A maioria de nós terá dificuldades em voar de maneira tão sublime quanto Francisco. Mas é preciso que tentemos constantemente a apreender a arte do vôo.
A quedas acontecerão. Os arranhões decorrentes da queda também. Talvez até algo se quebre nessas tentativas. Mas não deixe de tentar.

Porque se por fim não conseguirmos voar como Francisco, após tantas tentativas teremos pelo menos adquirido algumas 'ásperas marcas' e ainda inspiraremos um outro a bater asas conosco.

Bom vôo!

Wendell Ferreira Blois
subsecretário de formação

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"9"

"A um irmão leigo que foi pedir sua licença para ter um saltério deu cinza em vez do livro" (2Celano 147, 7)

Um punhado de pó!
É isso que Francisco oferta àquele que lhe pede um livrinho de salmos. O problema não está necessariamente no livro, mas no desejo que o leigo alimenta de 'ter' o mesmo. E o bem-aventurado lhe apresenta as mãos cheias daquilo que nós, em nossa essência, temos fisicamente: as cinzas ou o pó.
Inseridos em uma sociedade de consumo, verbos como 'ter' e 'possuir' nos margeiam constantemente, espreitando nosso 'ser' e nossas convicções.
O que escrevo não é um diagnostico critico da sociedade, ou uma amostra, em corte, da podridão causada pelo sistema de consumo em nosso cotidiano. Não! Seria simples e chato fazer somente isso, mas sim tentar indicar algum caminho ou exemplo, como cristão e franciscano, para agirmos de forma diferente frente as misérias que nos cercam.

Cristo não 'teve' nada, literalmente!
Berço? Não! O menino Deus nasceu numa manjedoura em meio aos animais.
Belas roupas? A divindade feito homem nasceu e morreu envolta em faixas indignas.
Mãe? Jesus deu a sua a nós, míseros consumistas.
Talvez um abraço? Não! Ele estava de braços abertos em uma madeiro e ninguém Lhe retribuiu gesto carinhoso.
Vida? Nem a isso Ele se apegou. Como Senhor da Vida, deu integralmente a sua para e pela humanidade.

E Francisco de Assis? IDEM!

Meus caros, eu entendo a dificuldade que encontramos em nos desemaranharmos de um sistema que, quando nascemos, já havia se desenvolvido plenamente, que nos propõe coisas fantásticas todas as manhãs, que nos oferece o milagre da tecnologia e a benção de inenarráveis avanços.
Afinal, de que tudo isso nos servirá?

Ao término e ao cabo de nossa vidas não seremos mais que um punhado de cinzas, que o irmão Vento, involuntariamente, soprará a seu bel-prazer indiferente do que um dia tivemos ou possuímos.

Wendell Ferreira Blois
subsecretario de formação

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"8"

"Não fiquem com vergonha porque, depois do pecado, tudo que temos nos é dado como esmola, e o grande Esmoler dá com clemente piedade aos dignos e aos indignos." (2Celano 77,6)


Muitas são as possibilidades de interpretação e reflexão dessa afirmação de Francisco de Assis.
O Seráfico Pai dirige essa palavras aos cavaleiros do seu tempo que, com piedade dos mendicantes que não tinham conseguido sequer migalhas de pão para seu sustento naquele dia, saíram em busca de alimento para os servir. Para surpresa de todos, os cavaleiros voltam ao grupo sem terem conseguido comprar mantimentos, uma vez que o dinheiro que possuíam era pouco. Ele tentam recorrer às esmolas dos frades, de modo a juntar sua soma à deles e assim voltar ao mercado local. E como vimos na frase em destaque, Francisco os exorta a confiarem mais em Deus e sua Providência, do que no vil metal.

Penso que vivemos situações parecidas a esta até hoje!
Quantas vezes durante nossa caminhada no segmento de Cristo, pela estrada trilhada por Francisco, nós esquecemos da Providência Divina e nos deixamos levar tão somente pelas nossa características cavaleirescas? E que características são essas, com as quais nos revestimos?
O elmo da discórdia.
A armadura da vaidade.
A capa da mentira.
A espada da medo.
E o que nos serve de transporte? Muitas vezes a falta de fé!

Retornemos à admoestação de Francisco.
Ele aponta com maestria a situação dos homens do seu tempo, e nosso nosso também: a de pecadores em condição de 'esmolantes'!
Mas Deus, como grande Esmoler, mas sobretudo como Pai não faz distinção de nossas falhas e atende, a seu modo, nossos anseios e necessidades.
E o grande presente que o Esmoler nos deu é nada mais do que nossa vida!
Finita? Sim!
Mas é através dela que Deus se manifesta constantemente, para que possamos conhecê-Lo melhor e entender que o a melhor recompensa, a principal esmola, nos aguarda: a vida eterna.

Peçamos que, por intercessão de São Francisco de Assis, o grande Esmoler ajude-nos a nos desnudar de nossas características cavaleirescas e descobrir nossa condição enquanto 'esmolantes'. De modo que, vivendo com alegria e humildade a ' vida que passa, sejamos dignos daquela que não passa'.

Assim seja, amém!

Wendell Ferreira Blois
subsecretário de formação

terça-feira, 25 de outubro de 2011

"7"

"Revestido da virtude do alto, este homem se aquecia mais com o fogo divino que tinha por dentro do que com a roupa que lhe recobria o corpo." (2Celano 69,1)

Um dia, em Assis.
O jovem Francisco parece um tanto quanto 'louco'. Andou em meio aos leprosos, peregrinou por capelas em ruínas e até distribuiu as melhores peças de tecido de seu pai aos mendigos da cidadela.
Ele já foi longe demais!
Seu pai o leva até à autoridade. Neste caso, o bispo.
Quando todos os presentes pensavam que o juízo seria reestabelecido à cabeça daquele moleque, uma nova travessura os surpreende:
Nudez!
Francisco tira sua roupa e a devolve a seu pai. Mas tamanha é a segurança de seu ato, que parece revestido de algo que as vistas dos que o cercam não enxergam.

Pois bem, é esse o lugar e o problema desta reflexão: a 'nudez revestida' de Francisco de Assis.
Francisco se coloca nú, assim como a criancinha recém-nascida. Francisco renasce para um vida nova. E é necessário não só a nudez física, que age mais como sinal visível do que prático, mas sim uma nudez espiritual, pura, quase ingênua. Como a do bebê à beira da pia batismal.

Francisco se desnuda para se aproximar e beber da principal pia, se saciar da verdadeira fonte que é Deus!
De fato ele não está nú: o próprio Cristo empresta seus farrapos de manjedoura à Francisco. E não só no momento do 'renascimento', mas também o revestindo com os trapos da cruz, quando Francisco está próximo do fim.
Não importa se era primavera ou outono, verão ou inverno. O fato é: Francisco se manteve espiritualmente nú durante todos os anos que se seguiram até sua morte, acalentado e aquecido pela força do Espírito Santo.
E foi assim, que Francisco se deixou conhecer: por não ter nada. Apenas Deus (que não é pouca coisa), em sua Trindade perfeita, e alguns pedaços de pano que cobriam seu 'santuário carnal'.

E nós?
Para nos identificarmos com as causas do assissiense utilizamos de tantos recursos banais: taus, camisetas, bonés, mochilas etc.
E pior: aqueles que, muitas vezes se identificam como "os que seguem o Seráfico Pai mais de perto", e que recebem como sinal maior de sua dedicação ao carisma uma cruz de pano (o hábito), em sua maioria¹ o abandonam às traças, em um cabide, mofando em um canto qualquer do roupeiro. (Observação: isso muda quando se aproxima datas importantes como a solenidade do patrono, em que os hábitos são levados ao varal para perder o cheiro de naftalina).
Seria uma tentativa de fazer uma releitura da 'nudez revestida' de Francisco?
Com certeza! Mas uma 'nudez revestida' de trajes finos e caros, que envergonham a nomenclatura da Ordem e sugerem a troca por 'irmãos maiores', ou algo do género. Parece que Francisco já sabia o que viria pela frente:

“Ainda vai ha ver tamanho relaxamento no rigor, e um domínio tão grande da tibieza, que filhos do pobre pai não vão se envergonhar de usar até púrpura (tecido vermelho com o qual é feito a capa dos reis) , cuidando apenas de mudar a cor”. (2Celano 69,13)

Peçamos à Trindade Santa que, por intercessão de São Francisco de Assis, se reestabeleça o verdadeiro sentido da 'nudez revestida' em nossos tempos, de modo a darmos um testemunho coerente de nossas escolhas e chamados.

Assim seja, amém!

Wendell Ferreira Blois
subsecretario de formação

(¹ Quando me refiro a uma maioria, deixo bem claro que não trato de todos os franciscanos, ou mais especificamente, de todos os frades. Pois há uma pequena porção que ainda usa o hábito como sinal visível de sua consagração e devoção ao seu chamado, diferentemente da outra corrente citada no corpo do texto. )

terça-feira, 18 de outubro de 2011

"6"

"Absolutamente íntegro na fé católica e destinado a receber uma missão apostólica, sempre teve a maior reverência para com os ministros de Deus e os seus ministérios." (2Celano 8,7)

Francisco, homem católico.
Em meio a uma sociedade repleta de 'hereges', Francisco apresenta seu ideal: "Viver em plenitude o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo".
Mas 'onde' Francisco teria espaço para viver desse modo?
A Igreja a que pertencia parece um tanto quanto indiferente às questões evangélicas, e até mesmo distante dos propósitos de seu fundador (Cristo) e dos apóstolos que a edificaram. Como manifestar então, tal ideal em um meio, aparentemente, nada propício?

Não é propriamente Francisco, ou algum de seus irmãos, que pensam e prometem fidelidade à Igreja Católica. Tampouco padres, bispos ou cardeais contemporâneos, mais propensos a julgar o ideal do assisiense como heresia ou blasfêmia, a crer que tudo isso era um fruto divino.

É Deus!
É ele que faz com que Francisco prometa por si e pelos seus, presentes e futuros, a Santa Obediência à Madre Igreja.

Boatos, intrigas, acusações, escândalos, horrores e muitos outros aspectos negativos da história da Igreja, pela qual professamos nossa fé ("Creio na Igreja: Una, Santa, Católica e Apostólica"), poderíamos ainda elencar.
Contamos com líderes que trocaram seu fano (veste papal) por uma armadura. O barrete (chapéu) pelo elmo do guerreiro. A férula (cajado papal) pela espada.

Frente a isso, por que nós, franciscanos, permanecemos 'fiéis' à Igreja?
Alguns poderão facilmente concluir:
- Ora, Francisco lhe prometeu fidelidade!

É muito mais do que isso, meus irmãos! Francisco não se compromete apenas com a realidade da Igreja de seu tempo, se compromete também, com toda a conjuntura da mesma, seja qual for seu líder (Joões, Inocêncios, Gregórios, Paulos, Honórios ou Bentos), sua origem (italiano, polonês, alemão, japonês, brasileiro etc.) ou suas atitudes (aspecto de vovô bonzinho ou politico inveterado).
Francisco se orienta por este raciocínio:
A Igreja é mantida pelo Pai, tendo como base o próprio Filho e guiada pelo Espirito Santo.

É isso que enche os olhos de Francisco... a beleza constitutiva da Igreja. É por isso que se entristece ao peregrinar em Roma e não notar homenagens dignas ao Príncipe dos apóstolos, Pedro! E por isso, decide repartir o que tem em mãos entre os pobres e a tumba do Santo. Presta homenagem altiva ao apostolo. Com sua generosidade, escandaliza os que o cercam.

E assim, também nós, devemos manter nossa fidelidade à promessa do Seráfico Pai, não apenas por uma mera tradição, mas crentes de que ninguém se senta no 'trono do pescador' se não o for digno. Não são os homens que o elegem, mas o próprio Deus que propõe e núpcias entre o novo papa e a Igreja.

Peçamos a Deus, por intercessão de Francisco, para que Ele aumente nossa fé de modo a não vermos mais na pessoa do papa ou na instituição da Igreja, feições humanas ou um amontoado de tijolos. Mas sim, presença viva D'aquele a quem o Seráfico Pai prometeu tão solenemente ser fiel!
No 2011º ano da natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo;
No 788º ano da aprovação da Regra Bulada dos Frades Menores, pelo papa Honório III, em que Francisco prometeu obediência;
E no 6º ano do pontificado de Sua Santidade, o papa Bento XVI, no qual dirigimos nossa fidelidade atualmente pela Santa Madre Igreja de Roma.

Assim seja, Amém!


Wendell Ferreira Blois
subsecretario de formação

(Dedico essas linhas ao irmão Murillo, meu irmão de fraternidade e editor deste blog, que apresenta um interesse significativo sobre história da Igreja, seus dogmas, ritos e preceitos. Dedico também a Frei Carlos Marchioni, OFM, meu pároco, que completou neste último sábado [15/10] 25 anos de serviço e fidelidade à Igreja).

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

"5"


“Pegai um cadáver exânime. Ponde-o onde quiserdes. Vereis que não se incomodará de ser movimentado, não se queixará do lugar, nem reclamará por o terem largado.
Se for colocado numa cátedra, vai olhar para baixo, não para cima. Se for vestido de púrpura, vai ficar duas vezes mais pálido.
Esse é o verdadeiro obediente.” (2Celano 152, 3-6)

Não escrevo estas linhas por ser um 'expert' no significado do termo "obediência"; tampouco por ser um exemplo de vivência da mesma. Reconheço antes, a minha grande dificuldade de compreendê-la e torná-la parte da minha vida. Talvez por isso, empreenda o estudo deste aspecto tão importante do carisma franciscano, de modo a entender onde está a real dificuldade da vivência da obediência.

Certa vez, um frade pediu a Francisco um modelo de vivência da obediência, e ele emprega para tal, o exemplo do morto que está sujeito a tudo, menos a sua própria vontade. Não que a obediência se compare a um estágio de morte em vida, ou algo parecido. Muito pelo contrário. Obediência e vida são termos que se conjugam lado a lado no carisma franciscano, ainda que se perceba que a vivência em obediência requeira uma certa abnegação, morte do "eu mesmo", ou melhor, "mortificação de uma egoístico vontade própria" para um "viver para o coletivo" ou "viver fraterno.”

Francisco é exemplo da perfeita obediência!

É obediente quando em Espoleto, através de um sonho, o Senhor pede que ele retorne a Assis de modo a lhe revelar o que deveria fazer em seguida. Qual a reação do poverello? Ele não questiona esta ordem e, imediatamente, abandona o caminho da guerra e retorna à terra natal, como lhe recomendara o Senhor.

Mais tarde, se encontra com o Crucificado em São Damião, e o mesmo lhe ordena "Vai e reconstrói minha Igreja". Francisco tem dificuldade para entender tal imperatividade colocada pelo Cristo, mas sem pestanejar, inicia a reconstrução de três igrejinhas, até entender qual a verdadeira Igreja ele deveria reconstruir, segundo as instruções do Senhor.


Anos depois, Francisco abre mão das funções de ministro-geral da Ordem, e para não se distanciar de seus princípios, pede que lhe seja indicado um Guardião. Aquele que, inspirado pelo Espírito, fundou uma nova Ordem no seio da Igreja, inspirou inúmeros homens e os dirigiu pela caridade e espírito fraterno, agora pede que ele próprio seja submetido às ordens de um outro frade, de modo a se distanciar das vaidades e exaltar a obediência.

Outra menção à obediência se encontra no verso:

“Ó senhora, santa caridade, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a santa obediência!”

Segundo Francisco, a obediência é irmã da caridade, e não é possível alcançar a plena vivência da primeira sem a perfeição da segunda. Só aquele que pratica a caridade, alcança a plenitude da obediência.

Peçamos a Deus que, inspirados pelo exemplo de Francisco, possamos interiorizar o principio da santa obediência, de forma que um dia possamos gritar com nossa vida o lema que serviu de modelo ao Seráfico Pai: "Que seja feita a tua vontade, e não a minha!" (Jesus, o Cristo)




Assim seja, Amém!

Wendell F. Blois
Subsecretário de formação

(Dedico essas linhas a todos aqueles que, lendo este texto, venham a se identificar com minha dificuldade em me configurar segundo a obediência proposta por São Francisco, mas mesmo assim, insistem em seguir seus passos.)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

"4" (de outubro)

“Eu fiz a minha parte, que Cristo vos ensine a fazer a sua!” (São Francisco de Assis)




Se por ocasião de 3 de outubro, toda a Ordem chorava o rompimento do umbigo paternal, a multidão dos anjos celebrava a chegada de uma alma agraciada por Deus. Partiu para o Pai, mas nunca se afastou de nós.

Francisco de Assis rompeu correntes de modismos, quebrou paradigmas, restaurou o templo de pedra para que pudesse ser sinal visível da benevolência divina e sobretudo, restaurou o templo do Espírito, para que o amargo pudesse se tornar doce e a cruz se tornar alento. Se por um lado todos diziam que a glória e a paz estavam na guerra, e como até hoje muitos afirmam, Francisco foi o homem que provou o contrário, pois sendo obediente, - e pela impressão das chagas possamos dizer obediente até a cruz, testemunhou que a glória está em Cristo, e que a paz nunca esteve na guerra, mas no assumir a sua própria fé, ao ponto que a fé do outro não lhe seja um empecilho de anunciar o evangelho.

Fica a pergunta se podemos nos dizer “franciscanos” olhando para aquele que é Francisco de Assis. Permanece a crença que todos estamos a caminho disso, desse seguimento fiel ao Cristo. E ao celebrar a festa de santo tão conhecido e venerado, é missão recordar o quanto iluminou o mundo, aquele que se considerou um verme, foi realmente um vírus, que contaminou o mundo com essa vontade de abandonar tudo para seguir Jesus Cristo. Não teve pretensão nenhuma de nada disso, ele simplesmente se abandonou na mão do oleiro, e Deus fez.

Já são mais de 800 anos que pessoas e mais pessoas, se lançam ao seguimento de Cristo ao modo de São Francisco de Assis, e está muito longe o fim. Francisco foi a explosão de um átomo ainda na Idade Média, e deu início a uma reação em cadeia que perdurará até a eternidade. Praticamente uma bomba, com cores de manjedoura, barulho de calvário e força de e da eucaristia.

Feliz dia de São Francisco!

Mateus Garcia
Secretário fraterno

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

"3" (de outubro)

"'Ó Alma santissima, em cujo passamento
acorrem os cidadãos do Céu.
Os coros dos Anjos exultam,
e a gloriosa Trindade convida dizendo:
- Permanece conosco para sempre!"
(Salmo do trânsito de S. Francisco)


"No fim do homem - diz o Sábio - suas obras serão desnudadas. Neste santo vemos que isso se realizou por completo, e gloriosamente." (2Celano 214, 1-2)

03 de outubro de 1226.
Vésperas.
Nas proximidades de Assis.

Um homem, que vinte anos atrás havia dado à Igreja um exemplo radical de vida evangélica, de vida dedicada à causa de Cristo, agora estava quase que irreconhecivel em meio aos irmãos que o cercava.
O que estava acontecendo?

Um homem que a principio parecia como um moribundo, q uase que entregue à morte, apresenta aspecto sereno e alegre.
"- Mas o que é isso?", indagavam os frades.Tal aspecto do "quase morto" deixava os presentes intrigados.
E quem era esse?
Só poderia ser o tal Francisco! O assissiense que, a exemplo de Cristo, até na morte foi motivo de escândalo entre os que ali estavam.

Ora, como poderia estar triste o homem que, em vida, contemplara as maravilhas do Senhor; o homem que carregara as marcas e sentira o amor e a dor do Cristo crucificado; e que por vinte anos se deixou levar pela força do Espirito Santo?

Como ele mesmo descrevera anos antes, era chegado o momento do grande encontro com a Irmã morte, da qual nenhum homem vivente poderia escapar.
Deitado sobre uma pedra, sem ter com que se vestir (mantendo assim sua fidelidade à dama Pobreza), voltava à forma com que inciara sua caminhada: nú. Assim como o "menino deus" nascera sem qualquer luxo e morrera envolta a farrapos, Fra n cisco procurou imitá-lo com perfeição.

Antes, partiu o pão com seus frades e os abençoou!
E, finalmente, seu corpo descansou no Senhor, e sua alma se precipitou diante do abismo da claridade divina.

Desse mesmo modo, somos convidados a celebrar com alegria o trânsito de Francisco para a vida eterna. Mas não é só um convite para uma celebração, muitas vezes, pomposa, e que tantas outras vezes nos serve sdomente para comemorarmos e confraternizarmos.Este é um convite maior, um desafio!
Nesta celebração somos desafiados a abandonar uma vez mais nossa realidade pecadora e nos "re-ligarmos" à nossa dimensão divina. Somos desafiados a nos alegrar com a morte, e entender sua função como portal para a verdadeira vida, que é a vida eterna. Somos desafiados a nos desnudar espitiritualmente e deixar transparecer, ao Senhor, tão somente o que somos.

Por fim, somos convidados a elevar ação de graças a Deus pela dádiva d e, durante algum tempo, desfrutarmos de presença tão divina (ainda que com feições humanas) entre nós!
Louvado sejas meu Senhor, pela vida de Francisco de Assis!

Assim seja, Amém!

Wendell F. Blois
subsecretario de formação

terça-feira, 27 de setembro de 2011

"2"

 "Peregrinando pelo corpo longe do Senhor, Francisco, o homem de Deus, procurava fazer seu espírito estar presente no céu. Já feito concidadão dos anjos, só estava separado deles pela parede do corpo."(2 Celano 94, 1)
A oração implica numa mudança total de nossos processos mentais, pois ao orar afastamo-nos de nós mesmos, de nossas preocupações, nossos interesses, nossa satisfação pessoal, e dirigimos para Deus tudo que consideramos nosso, com a firme confiança de que, pelo seu amor, tudo será renovado.
Era assim que Francisco orava!
E, como vai nossa oração hoje?

Muitas justificativas podem ser indicadas em relação à falta de oração em nosso cotidiano, desde a escassez de tempo até o esquecimento de que é pela oração que no 're-ligamos' de forma concreta e eficaz, com o criaturas, com o Criador.
Francisco de Assis fez de sua jornada pelo mundo uma grande oração. Oração esta, que não se encerrou com sua morte, ou tão pouco se perdeu pelo tempo.
Esta oração é aquela que se inicia no momento divino em que nascemos; se desenvolve em pedidos, agradecimentos, súplicas e silêncios (sim, pois o silêncio é uma das melhores formas de oração) durante toda nossa vida; e só se encerra quando a irmã Morte nos solicita um generoso "Amém".

Meus irmãos, eis a receita de oração de Francisco: orar com a vida!
Peçamos a Deus que,seguindo os passos de Francisco, possamos nos fortalecer de tal modo em um espirito de oração, que tão somente a parede da carne, a qual chamamos corpo, nos separe d'Ele e de sua eterna graça.

Assim seja, amém!

Wendell Ferreira Blois
subsecretario de formação

(Essas linhas são dedicadas à queridissima irmã Raquel, da OFS de Franca. Ela que é pra Jufra modelo de perseverança, generosidade e, sobretudo, de espirito franciscano orante. Conte com nossas orações!)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

"1"

Nos diz certo pensador: "Todos os seres são iguais, pela sua origem, seus direitos naturais e divinos e seu objetivo final."
A principio, podemos identificar a sentença acima como de um personagem histórico, fruto do século XX, como Martin Luther King, Mahatma Gandhi ou Madre Teresa de Calcutá que, cada um a seu modo, lutaram pelo direito de brancos e negros bem-conviverem, o direito de resistência e tolerância religiosa e pelo direito à igualdade. Mas a autoria desta frase não é de nenhum deles.
Talvez se recuarmos um pouco mais na historia, possamos descobrir que cabeça poderia ter projetado tal pensamento. Quem sabe um filosofo de cunho legitimamente social como Karl Marx? Ou um homem como Sigmund Freud, que dedicou sua existência ao estudo do pensamento humano? Ou ainda Darwin, o mentor do evolucionismo?
Não! Nenhum desses grandes nomes do século XIX se aproximaram de tal definição.
Meus amigos, tentemos fazer um ultimo recuo no percurso da historia, e recorramos ao período em que a cabeça dos homens fervilhava de ideias e novas ideologias. Voltemos ao tempo em que o homem começa a descobrir suas potencialidades e se coloca como centro do mundo... voltemos aos século das luzes, o século XVIII.
Rousseau discursou sobre a "Origem da desigualdade dos homens”; Montesquieu elaborou um sistema jurídico sistêmico e aparentemente, justo; Voltaire gritava a todo àquele que quisesse ouvi-lo: "Lutarei até a morte para que você tenha o direito de discordar de mim". Mas também não foram estes!

Foi no século XIII, em que um homem não muito dado a discursos, conceitos ou ideologias disse isto.
Um jovem personagem da historia, que soube viver seu tempo e foi agente transformador de sua sociedade.

A este humilde pensador, chamamos São Francisco de Assis!


Autor: Wendell Ferreira Blóis